Quando o Nicolas completou 05 anos, comecei a conversar com ele sobre o fato de seu "pipo ficar duro". Como disse antes, ele não falava quase nada e mal respondia, mas com o tempo foi respondendo e entendendo o que eu estava dizendo. Eu sempre tive uma certeza dentro de mim de que, apesar de ele demonstrar não estar escutando, eu sabia que ele me entendia e esperava pelo dia de ele conversar comigo e interagir na conversa. Esse dia já chegou :-)
Porém, antes de chegar, penamos por vários anos na incerteza se ele realmente estava entendendo e as histórias que havia ouvido sobre autismo e sexualidade, todas negativas, estavam me assombrando.
Um dia, quando o Nicolas estava com uns 06 anos, eu percebi que ele estava mexendo no pênis. Então eu comecei a falar com ele na maior naturalidade:
- Filho, você está mexendo no pipo?
- Sim.
- Você sabe que só pode mexer dentro de casa, né?
- Por quê?
- Eu te disse que a polícia não vai gostar de ver um garoto grande como você (o Nicolas sempre foi enorme, conforme relatado antes) mexendo no pipo na rua. Nem as pessoas vão gostar e vão falar que eu não soube te educar e eu vou ficar muito triste, filho. Você está me entendendo?
- Sim.
- Então promete para a mamãe que você só vai mexer no pipo dentro de casa e só dentro do quarto. Você promete?
Silêncio...
- Amor da mamãe. você promete que só vai mexer no pipo dentro de casa?
- Sim.
- Obaaaaaaaaa. Papai, o Nicolas prometeu que só vai mexer no pipo dentro de casa! Olha que lindo. Vamos levá-lo ao McDonald's hoje?
- Vamos, mamãe! Ele merece esse prêmio porque ele é muito inteligente e entende tudo, né filhão!
- Entende sim papai. Ele é muito inteligente e lindo, né filho?
Aos sete anos, expliquei ao Nicolas sobre o famoso "troca-troca" na escola e que ele jamais deveria deixar qualquer garoto (ou até mesmo garota naquela idade) pegar em seu pênis. Aos oito anos, expliquei ao Nicolas sobre menstruação com a maior naturalidade e disse a ele que só as mulheres tinham. Por causa do sangue, ele me perguntou:
- Mas dói? Você chora?
- Não, meu amor. Não dói nada. Às vezes dá uma cólica em algumas mulheres, em outras dá dor nas pernas, outras têm dor nas costas e outras, assim como eu, têm dor de cabeça. Mas isso é normal.
Mal sabia ele que eu quase morro de dor de cabeça, hoje ele já sabe!
Aos nove anos explicamos a ele como os bebês são feitos. Ele já sabia como nasciam porque já havíamos explicado, não me lembro bem quando, mas explicamos primeiro como nasciam e só algum tempo depois como eram feitos.
Durante todo esses anos, sempre nos lembramos de elogiá-lo por não se masturbar ou tocar no pênis na rua. Ele fica todo orgulhoso quando é elogiado e dá um sorriso lindo seguido de um bem pronunciado "Muito obrigado".
Aos 10 anos, dissemos a ele como se dava a relação sexual e quais as sensações. Ele parou, pensou e disse:
- Não vejo a hora de fazer 18 anos para transar! (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk)
- Por que 18 anos, amor?
- Porque aí eu já vou ser grande. Aqui no Brasil pode fazer as coisas com 18 anos que você falou, lembra?
Acho que foi quando eu expliquei que era época de ir ao exército, dirigir, etc. A época da independência em alguns aspectos.
Conforme o Nicolas foi crescendo, fui me preocupando mais e mais com o prepúcio ou com uma possível volta da fimose, pois ele não deixava pegar para lavar direitinho por dentro. Comecei a pensar em circuncidá-lo para facilitar a higienização. Falei com meus irmãos e marido sobre suas experiências e fiz a melhor escolha. Levei-o ao urologista, pois estava muito preocupada com a fase da masturbação que estava chegando e de como seria. Ele se sentiria enojado? Conseguiria limpar-se a pós a ejaculação? O prepúcio o atrapalharia por causa de sua falta de coordenação? A higienização pós ejaculação seria fácil para ele, para que não precisássemos intervir e, assim, levar uma vida normal em relação à masturbação?
Fomos a um urologista excelente, Dr. Domingos, que me foi indicada por meu marido e irmãos. Ao chegar no consultório, disse a ele que meu filho é autista e ele tratou o Nicolas com o maior carinho do mundo... Imaginem o carinho que eu não tenho por este médico até hoje. Mesmo não tendo o menor contato com ele, está sempre em minhas orações, porque ele foi tão fofo com o Nicolas, tão compreensível e amável, que foi fácil fazer com que o Nicolas confiasse nele e deixasse ele examiná-lo.
- Vamos lá Nicolas! Pode subir aqui e deitar que nós vamos dar uma olhada aí. Não precisa ter medo, viu! Será bem rápido e você não vai sentir nada.
- Mãe? - Disse o Nicolas me olhando com aquele olhão desconfiado.
- Pode confiar, filho. Ele é amigo da família inteira e sabe o que está fazendo. Ele nunca machucou ninguém, não é Doutor? - E o Dr. Domingos logo entendeu o jogo da voz doce e da reafirmação e foi logo dizendo em um tom bem descontraído e amável.
- Nunca machuquei ninguém, não. Eu só vou olhar e mostrar para ele como limpar direitinho. Vai lá, garotão. Vamos dar uma olhada.
O Nicolas subiu na maca e segurou minha mão com tanta força que eu achei que fosse me machucar. O tempo inteiro ficamos encorajando-o e dando todo suporte necessário a ele. Ele suou tanto na maca que até molhou aquele papel de proteção que serve para o paciente deitar-se. Então o Doutor Domingos começou puxar o prepúcio para ver se estava tudo bem e o Nicolas, conforme o médico tentava abaixar o prepúcio, ia levantando o bumbum e se retraindo para trás, o que começou a dificultar. Mas aí eu disse a ele:
- Filho, relaxa e deixa ele examinar, porque se ele não conseguir, teremos que operar e aí as coisas ficarão piores, pois será igual a quando você operou do apêndice. Hospital, dor, remédios e etc. Você quer isso?
- Não! - Responde ele bem inseguro e segurando minha mão.
- Então deixe o médico examinar que sairemos daqui rapidinho. Ah, e se você não deixá-lo examinar, acho que você não poderá transar com 18 anos.
Pronto! Ele começou a a dizer "Então tá bom! Então tá bom!" e foi relaxando. E... o Doutor Domingos conseguiu! Tirou todo o prepúcio e pudemos ver que estava tudo em ordem, bem limpinho e que a fimose não havia voltado :-)
O médico orientou o Nicolas a fazer o procedimento embaixo do chuveiro para facilitar e para praticar sempre que possível para que ele fosse se acostumando. Então, começamos a falar para ele no mesmo dia:
- Nicolas, não esquece de treinar embaixo do chuveiro, tá bom?
No primeiro dia, ele acabou o banho todo feliz:
- Mãe pai, eu consegui! Eu consegui "treinar" e consegui tirar tudo para fora.
A carinha de felicidade dele (como sempre encantadora) estava toda iluminada e com aquele ar de "Vitória"!
A partir daquele dia, o Nicolas começou a "treinar" no quarto todos os dias. No começo, ele "treinava" umas 04 vezes por dia. Explicamos a ele que ele jamais poderia falar isso na frente das pessoas ou "treinar" enquanto tivesse pessoas estranhas em casa. O orientamos a trancar a porta e nos avisar para que não o incomodássemos em seu momento mais íntimo. O termo "treinar" tomou o lugar do termo "masturbar" aqui em casa. O Nicolas sabe a diferença, mas prefere usar "treinar". Claro que respeitamos e achamos muito lindo (sim, somos todos muito babões com ele, afinal o cara não falava até pouco tempo, logo, tudo o que ele fala é motivo de celebração).
Já explicamos a ele que logo, logo ele começará a ejacular. Ainda esta semana perguntei a ele se ele já estava ejaculando e ele disse que ainda não. O Alexsander perguntou a ele:
- Filho, você sabe o que é ejacular?
- Sei sim. É quando sai uma "gosminha" branca de dentro do pênis.
- E você não vai ter nojo?
- Não. Eu vou me limpar e pronto. Vocês já me explicaram isso, lembra?
É.... acho que conseguimos. Graças a termos ido atrás de informações e de informações terem chegado até nós, porque sempre aceitamos o autismo de nosso filho, então as pessoas sempre se sentiram à vontade para falar conosco, fomos falando com ele durante todos estes anos para prepará-lo para essa fase.
Próximo passo? Continuar falando com ele de vez em quando, como se "faz amor". Ele será capaz? Só o tempo dirá. Porém, se ele assim o quiser e achar a pessoa ideal, ele estará preparado. E nós também.
Parte I: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e.html
Parte II: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_13.html
A história real de um garoto que nasceu autista e que aprendeu a viver em dois mundos.
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domingo, 16 de dezembro de 2012
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Nossas experiências com Autismo e Sexualidade - Parte II
Quando o Nicolas tinha 07 meses, eu comecei a tentar tirar sua fimose após o banho. Um dia, saiu feito manteiga. Ele, como era muito resistente à dor, não chorou no momento. A impressão que deu é que ele sentiu um calafrio, mas eu comecei a dizer:
-Pronto, pronto, pronto, meu amor. Já passou, viu! Parabéns, lindo da mamãe, você é muito corajoso.
Após uma hora, o Nicolas começou a chorar desesperadamente, o que ele raramente fazia, então nos assustou muito. Levei-o ao médico e disse o que havia acontecido. A médica passou xilocaína em seu pênis e então ele voltou a fazer xixi e coco. O que aconteceu é que, cada vez que ele tentava fazer suas necessidades, seu pênis ardia porque eu havia tirado a fimose. Levamos xilocaína para casa e tratamos por alguns dias com uma pomadinha e tudo se resolveu. Quer dizer, quase tudo, pois, toda vez que eu ia lavar seu pênis, ele se assustava (ele já tinha memória eidética, mas falávamos em "memória de elefante" rsrsrsrs).
Sempre desenvolvemos as habilidades do Nicolas e ele começou a tomar banho sozinho quando estava por volta dos 08 anos, mas todas as semanas "fazíamos uma faxina" nele com um bom banho e sempre explicando a ele onde e como lavar. Nicolas tem um pequeno problema de coordenação até hoje. Ela não tem força e coordenação necessárias para sua idade, então isso impede que ele lave sua cabeça bem, pois não esfrega bem o couro cabeludo.
Bem, como ele começou a ficar bem grandinho e a desenvolver, o Alexsander ficou responsável por seu banho semanal, mas com viagens a trabalho, um dia teve que ser eu. Quando me deparei com o homem que meu filhinho havia se tornado da noite para o dia, notei que era hora de levar a conversa sobre sexo mais adiante. Ele já sabia tudo sobre menstruação e como os bebês nascem. Agora era a hora de explicar como eles eram feitos e sobre masturbação.
Durante todos esses anos eu sempre fui lembrando o Nicolas de que ele só poderia "mexer no pipo" dentro de casa e dentro do quarto dele. Que na rua, as pessoas iriam julgá-lo e que não poderíamos mais sair para comprar as "guloseimas" dele se ele não se comportasse.
As conversas foram ficando mais sérias conforme ele foi crescendo e desenvolvendo a habilidade de falar. Em todos estes anos eu só ouvi histórias tenebrosas sobre crianças autistas e sexualidade. NUNCA ouvi uma história de sucesso. Talvez as pessoas tenham medo de se expor e eu entendo... Não é fácil... Mas conforme ia ouvindo as histórias eu ia falando com o Nicolas sobre isso e sempre pedia a ele para nunca tocar no pipo na frente das pessoas porque senão muitas coisas poderiam acontecer, como o conselho tutelar levá-lo de mim e eu responder por atentado ao pudor. Sei que talvez nada disso acontecesse, mas se você perguntar ao Nicolas o que significa atentado ao pudor, ele sabe te explicar.
Ouvi coisas do tipo:
- Anita, tem um menino que frequenta a igreja católica na minha cidade e ele tira a roupa no meio da missa. O problema é que ele está cada vez maior e já tem até pelo no saco. Mas a mãe não consegue controlá-lo e disse ao padre que seu filho é especial e que não pode parar de ir à igreja.
- Anita, você poderia conversar com a mulher da minha igreja? Todas as vezes no culto, o filho dela tira o pipi pra fora e fica se esfregando. Depois ele passa a mão na gente. É nojento! Mas ela não tá nem aí porque o filho dela é doente mental e a gente não pode falar nada. Semana passada ele passou a mão em uma mulher e ela ficou brava com o menino que começou a gritar. Uns criticaram a mulher e outros a mãe do menino.
- Ai, teacher. Minha tia ligou chorando e disse que meu primo começou a se masturbar dentro do mercado e que chamaram o segurança. Ele não parou quando a mãe pediu e o segurança agarrou no braço dele. Aí ele começou a berrar e os dois foram tirados do mercado. Ela está com tanta vergonha que vai mudar de cidade, porque a cidade que ela mora é um ovo e está todo mundo comentando.
E tem mais um monte de história tristes...
Depois conto mais a vocês e direi como está o Nicolas hoje, aos 13 anos.
Parte I: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e.html
Parte III: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_16.html
-Pronto, pronto, pronto, meu amor. Já passou, viu! Parabéns, lindo da mamãe, você é muito corajoso.
Após uma hora, o Nicolas começou a chorar desesperadamente, o que ele raramente fazia, então nos assustou muito. Levei-o ao médico e disse o que havia acontecido. A médica passou xilocaína em seu pênis e então ele voltou a fazer xixi e coco. O que aconteceu é que, cada vez que ele tentava fazer suas necessidades, seu pênis ardia porque eu havia tirado a fimose. Levamos xilocaína para casa e tratamos por alguns dias com uma pomadinha e tudo se resolveu. Quer dizer, quase tudo, pois, toda vez que eu ia lavar seu pênis, ele se assustava (ele já tinha memória eidética, mas falávamos em "memória de elefante" rsrsrsrs).
Sempre desenvolvemos as habilidades do Nicolas e ele começou a tomar banho sozinho quando estava por volta dos 08 anos, mas todas as semanas "fazíamos uma faxina" nele com um bom banho e sempre explicando a ele onde e como lavar. Nicolas tem um pequeno problema de coordenação até hoje. Ela não tem força e coordenação necessárias para sua idade, então isso impede que ele lave sua cabeça bem, pois não esfrega bem o couro cabeludo.
Bem, como ele começou a ficar bem grandinho e a desenvolver, o Alexsander ficou responsável por seu banho semanal, mas com viagens a trabalho, um dia teve que ser eu. Quando me deparei com o homem que meu filhinho havia se tornado da noite para o dia, notei que era hora de levar a conversa sobre sexo mais adiante. Ele já sabia tudo sobre menstruação e como os bebês nascem. Agora era a hora de explicar como eles eram feitos e sobre masturbação.
Durante todos esses anos eu sempre fui lembrando o Nicolas de que ele só poderia "mexer no pipo" dentro de casa e dentro do quarto dele. Que na rua, as pessoas iriam julgá-lo e que não poderíamos mais sair para comprar as "guloseimas" dele se ele não se comportasse.
As conversas foram ficando mais sérias conforme ele foi crescendo e desenvolvendo a habilidade de falar. Em todos estes anos eu só ouvi histórias tenebrosas sobre crianças autistas e sexualidade. NUNCA ouvi uma história de sucesso. Talvez as pessoas tenham medo de se expor e eu entendo... Não é fácil... Mas conforme ia ouvindo as histórias eu ia falando com o Nicolas sobre isso e sempre pedia a ele para nunca tocar no pipo na frente das pessoas porque senão muitas coisas poderiam acontecer, como o conselho tutelar levá-lo de mim e eu responder por atentado ao pudor. Sei que talvez nada disso acontecesse, mas se você perguntar ao Nicolas o que significa atentado ao pudor, ele sabe te explicar.
Ouvi coisas do tipo:
- Anita, tem um menino que frequenta a igreja católica na minha cidade e ele tira a roupa no meio da missa. O problema é que ele está cada vez maior e já tem até pelo no saco. Mas a mãe não consegue controlá-lo e disse ao padre que seu filho é especial e que não pode parar de ir à igreja.
- Anita, você poderia conversar com a mulher da minha igreja? Todas as vezes no culto, o filho dela tira o pipi pra fora e fica se esfregando. Depois ele passa a mão na gente. É nojento! Mas ela não tá nem aí porque o filho dela é doente mental e a gente não pode falar nada. Semana passada ele passou a mão em uma mulher e ela ficou brava com o menino que começou a gritar. Uns criticaram a mulher e outros a mãe do menino.
- Ai, teacher. Minha tia ligou chorando e disse que meu primo começou a se masturbar dentro do mercado e que chamaram o segurança. Ele não parou quando a mãe pediu e o segurança agarrou no braço dele. Aí ele começou a berrar e os dois foram tirados do mercado. Ela está com tanta vergonha que vai mudar de cidade, porque a cidade que ela mora é um ovo e está todo mundo comentando.
E tem mais um monte de história tristes...
Depois conto mais a vocês e direi como está o Nicolas hoje, aos 13 anos.
Parte I: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e.html
Parte III: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_16.html
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Nossas experiências com Autismo e Sexualidade - Parte I
Tentei amenizar os fatos aqui relatados, mas há coisas que, mesmo amenizando, ficam um tanto "pesadas" para se ler. Se não sentir-se preparado, não leia este post nem o próximo.
Há muitos anos, conversando com uma amiga, ela me disse que uma parente sua tinha um filho autista e que todos sofriam muito por causa disso. Era uma família de classe média alta e moravam no Litoral Cearense, pois tinham mais paz fora do Estado de São Paulo. No Ceará, eles viviam em uma casa grande, com um quintal enorme e próximo a uma linda praia. Ali, tinham poucos amigos e nunca chamavam ninguém para ir a casa deles. Parentes nunca visitavam e a sociedade ao redor, certamente, julgava o casal como anti-social, pois qualquer tentativa de se aproximar do casal, era em vão.
Ao me contar sobre esta família, minha amiga detalhou alguns fatos da vida deste casal.
* A criança, um menino, de repente "virou" autista (hoje sabe-se que não é bem assim e que ninguém vira autista);
* Ficou extremamente agressivo e parou de falar o pouco que falava;
* Não ia no colo de nenhum membro da família;
*Balançava-se para frente e para trás o tempo todo;
*Não conseguia viver em sociedade;
Como ela também era professora, disse-me que gostaria de trabalhar com crianças especiais um dia e que gostaria de trabalhar com alunos com Síndrome de Down, mas que tremia só de pensar em ter um aluno autista. Conversamos sobre o assunto por umas duas horas, durante um almoço em sua casa.
O que ela me contou ao final, me comoveu demais e eu ainda nem era mãe! Ela me contou como estava a vida da amiga e que elas não estavam mais se falando tanto porque a amiga se abriu com ela e contou o que estava acontecendo.
O filho estava com 15 anos e estava se masturbando muito. O problema, é que, após a ejaculação, o menino começava a gritar, pois ficava com nojo de ficar sujo.
O garoto começou a ficar mais agitado, e sua mãe teve que começar a masturbá-lo... Começamos a chorar, pensando no sofrimento dos pais com aquela situação. A família era muito católica e isso os estava consumindo. Não conseguimos terminar o assunto, porque a comoção foi geral.
Depois falamos sobre mais alguns autistas que tinham desejos específicos, tais como: carros, obituários, um determinado desenho (o filme Rain Man havia sido lançado nos cinemas brasileiros naquela época, por isso o assunto veio à tona) e mudamos de assunto com a frase: "Bem, vamos falar de coisas mais leves!"
10 anos depois, tornei-me mãe.
Ao desconfiar que meu filho poderia ser autista, tive receio de como seria quando chegasse sua adolescência (sim, sempre penso à frente, mas não sofro por antecedência). Ao ter certeza de que ele ERA autista, fiquei pensando em como o ensinaria a "comportar-se" em sociedade em relação a isso.
Aos cinco anos comecei a conversar com ele sobre o assunto. Ele ainda não verbalizava quase nada:
- Filho, às vezes você fica com o pipo¹ durinho?
- Sim.
- E você mexe nele?
Silêncio...
- Filho, você mexe nele quando está duro?
- Sim.
- Posso te pedir uma coisa? Quando você quiser mexer, só pode ser dentro de casa. Pode ser? (...) Nicolas, você está me ouvindo, amor? (Silêncio) Nicolas?
E parei de falar sobre o assunto naquele momento, retornando somente no dia seguinte.
Meu coração estava à mil e meus pensamentos rodando em minha cabeça. Será que ele estava me entendendo? Será que ele iria ter problemas? Será que nós teríamos problemas com ele em relação a ele?
Confesso que durante aquele período considerei várias coisas, mas não sabia bem o que considerar. Os adolescentes neurotípicos já dão trabalho quando os hormônios estão a mil, imaginem um autista?
Orei muito e pedi a Deus forças para passar por aquele momento e chegar nos dias de hoje. E deu certo...
Depois conto mais a vocês
¹ Pipo era a palavra que usávamos para nos referirmos ao pênis. Hoje em dia já falamos pênis para ele.
Parte II: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_13.html
"O caminho que percorremos, no início, foi tortuoso, cheio de pedras e incertezas, pois não sabíamos aonde estávamos indo. Com fé, tenacidade e amor, chegamos ao paraíso. Bastou perseverança e acreditar em um Deus todo poderoso para sermos felizes. Nosso filho é um exemplo de que todos temos potencial e que todos somos merecedores de uma vida digna, não importa cor, credo, sexo ou condição."
Anita Brito
Há muitos anos, conversando com uma amiga, ela me disse que uma parente sua tinha um filho autista e que todos sofriam muito por causa disso. Era uma família de classe média alta e moravam no Litoral Cearense, pois tinham mais paz fora do Estado de São Paulo. No Ceará, eles viviam em uma casa grande, com um quintal enorme e próximo a uma linda praia. Ali, tinham poucos amigos e nunca chamavam ninguém para ir a casa deles. Parentes nunca visitavam e a sociedade ao redor, certamente, julgava o casal como anti-social, pois qualquer tentativa de se aproximar do casal, era em vão.
Ao me contar sobre esta família, minha amiga detalhou alguns fatos da vida deste casal.
* A criança, um menino, de repente "virou" autista (hoje sabe-se que não é bem assim e que ninguém vira autista);
* Ficou extremamente agressivo e parou de falar o pouco que falava;
* Não ia no colo de nenhum membro da família;
*Balançava-se para frente e para trás o tempo todo;
*Não conseguia viver em sociedade;
Como ela também era professora, disse-me que gostaria de trabalhar com crianças especiais um dia e que gostaria de trabalhar com alunos com Síndrome de Down, mas que tremia só de pensar em ter um aluno autista. Conversamos sobre o assunto por umas duas horas, durante um almoço em sua casa.
O que ela me contou ao final, me comoveu demais e eu ainda nem era mãe! Ela me contou como estava a vida da amiga e que elas não estavam mais se falando tanto porque a amiga se abriu com ela e contou o que estava acontecendo.
O filho estava com 15 anos e estava se masturbando muito. O problema, é que, após a ejaculação, o menino começava a gritar, pois ficava com nojo de ficar sujo.
O garoto começou a ficar mais agitado, e sua mãe teve que começar a masturbá-lo... Começamos a chorar, pensando no sofrimento dos pais com aquela situação. A família era muito católica e isso os estava consumindo. Não conseguimos terminar o assunto, porque a comoção foi geral.
Depois falamos sobre mais alguns autistas que tinham desejos específicos, tais como: carros, obituários, um determinado desenho (o filme Rain Man havia sido lançado nos cinemas brasileiros naquela época, por isso o assunto veio à tona) e mudamos de assunto com a frase: "Bem, vamos falar de coisas mais leves!"
10 anos depois, tornei-me mãe.
Ao desconfiar que meu filho poderia ser autista, tive receio de como seria quando chegasse sua adolescência (sim, sempre penso à frente, mas não sofro por antecedência). Ao ter certeza de que ele ERA autista, fiquei pensando em como o ensinaria a "comportar-se" em sociedade em relação a isso.
Aos cinco anos comecei a conversar com ele sobre o assunto. Ele ainda não verbalizava quase nada:
- Filho, às vezes você fica com o pipo¹ durinho?
- Sim.
- E você mexe nele?
Silêncio...
- Filho, você mexe nele quando está duro?
- Sim.
- Posso te pedir uma coisa? Quando você quiser mexer, só pode ser dentro de casa. Pode ser? (...) Nicolas, você está me ouvindo, amor? (Silêncio) Nicolas?
E parei de falar sobre o assunto naquele momento, retornando somente no dia seguinte.
Meu coração estava à mil e meus pensamentos rodando em minha cabeça. Será que ele estava me entendendo? Será que ele iria ter problemas? Será que nós teríamos problemas com ele em relação a ele?
Confesso que durante aquele período considerei várias coisas, mas não sabia bem o que considerar. Os adolescentes neurotípicos já dão trabalho quando os hormônios estão a mil, imaginem um autista?
Orei muito e pedi a Deus forças para passar por aquele momento e chegar nos dias de hoje. E deu certo...
Depois conto mais a vocês
¹ Pipo era a palavra que usávamos para nos referirmos ao pênis. Hoje em dia já falamos pênis para ele.
Parte II: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_13.html
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