quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Entrevista para o blog Janelinha para o Mundo, de Daniela Laidens

Entrevista para o blog Janelinha para o Mundo, de Daniela Laidens
Anita Brito - Meu filho era autista

Daniela Laidens, Nosso muito obrigado! 


"Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca... nunca, jamais cedam. Nunca se apequenem. Nunca cedam à força"
Esta frase foi dita por Winston Churchill , em outubro de 1941 e eu realmente não achei nada melhor para ilustrar esta maravilhosa entrevista com a escritora do livro "Meu filho era autista", uma mãe que mudou o rumo, achou as coordenadas certas e hoje é uma vitoriosa.
Conheci a Anita em nosso grupo virtual de mães do qual faço parte e logo de cara vi que ali estava uma grande mulher, admirável por sua força e coragem. Hoje trago para o blog uma entrevista que fiz com ela e tenho certeza que, após esta leitura, se vocês ainda não a conhecem, começarão a admirá-la, assim como eu!

janelinha para o mundo -Anita, a tua história é muito parecida com o filme ‘Meu filho, meu mundo’, onde a mãe não se conformou com o prognóstico dos médicos sobre o seu filho e foi a luta, acreditando no potencial do filho. O filme foi uma inspiração?

Anita Brito- Acredite ou não, eu só assisti a esse filme há três semanas, no dia 02/09/2012, juntamente com meu marido. Nunca havia assistido. Realmente há semelhanças, principalmente no que diz respeito a tentar resgatar o filho do isolamento. Só a forma utilizada é que foi bem diferente, pois não passávamos horas o imitando, mas sim o estimulando e conversando com ele, mesmo parecendo que ele não estava ali nos ouvindo. De alguma forma, sabíamos que ele estava. É complicado, mas como não sabíamos qual era o problema, estávamos tentando uma série de coisas. Por exemplo, acreditávamos que seria possível, com os estímulos, desenvolver uma outra parte de seu cérebro. Ou que, se era de ordem psiquiátrica, ele se sentiria mais amado e mais seguro para se expressar. Só temíamos uma doença degenerativa ou um tumor, porque aí sim as chances de perdê-lo seriam maiores. Loucura, não é? Mas só tínhamos conjecturas e esperanças para nos apegar. E fomos tentando tudo o que podíamos tentar. Jogos, desenhos de que ele gostava, vídeo games. Até o dia em que eu o levei ao carrossel e ele me olhou e sorriu… Ali, tivemos a certeza de que era possível tirá-lo daquele abismo. Tivemos muita sorte, pois o Nicolas não tem nenhuma outra síndrome agregada a seu autismo, pois as outras dificultam ainda mais uma tentativa de chegar à criança. Ele não tem PC, Down, ou qualquer outra síndrome. Não que essas sejam mais ou menos incapacitantes, mas acreditamos que somente o autismo, deixa mais fácil. Talvez estejamos enganados…

janelinha para o mundo - Com que idade notou que havia algo de ‘diferente’ com o Nicolas? 

Anita Brito - Desde quando ele tinha uns 04/06 meses, pois ele era muito quietinho. Não chorava nem quando estava com febre. Mas, no começo, achava que eu estava inventando coisas em minha cabeça. Tanto eu, quanto a família, (estávamos morando na casa da minha sogra quando ele nasceu) falávamos muito com ele, mas ele era sempre bem quietinho e só demonstrava reações maiores em frente ao ventilador ou à máquina de lavar. Quando ele completou 02 anos, eu o levei ao médico novamente para falar sobre minhas suspeitas, mas a resposta foi que eu estava louca, pois ele era um menino lindo! Aos 03 eu o levei a uma psicóloga que atestou que ele era retardado (foi esse o termo usado por ela), pois não conseguia fazer os exercícios propostos para sua idade. Ela disse que ele jamais desenvolveria. Aos 03 anos e meio, levei-o a uma outra psicóloga (nessa época meu marido e minha família já acreditavam em minhas suspeitas, o que tornou tudo mais fácil) e ela disse que ele era muito mimado e que nós o estávamos sufocando com tantos mimos.

janelinha para o mundo - Ele foi diagnosticado? Com quantos anos?

Anita Brito - Só foi diagnosticado (tenho relatórios do Dr. Estevão e do Dr. Salomão, entre outros) quando já estava com 04 anos de idade. Tenho relatórios mais recentes, de 10 anos de idade.

janelinha para o mundo - Qual foi o momento que resolveste virar o jogo? Por onde começou?

Anita Brito - Ele teve uma doença chamada Púrpura de Henoch-Schönlein, que quase o matou. Após a hospitalização, ele voltou para casa muito diferente do que era. O pouco de comunicação que ele tinha, ficou no passado… Ele começou a cortar relações com os familiares, depois com o pai e, por fim, comigo. Foi um domingo pela manhã, meu marido havia ido trabalhar, que eu tentei falar com o Nicolas e ele agia como se ninguém estivesse ali. Daquele dia em diante, ele parou de falar completamente, só se balançava, torcia os dedos, gargalhava sem motivo, chorava muito forte sem motivo e perdeu todo o contato visual. A partir daquele dia, decidi que não podia mais esperar algum médico concordar comigo. Pesquisei tudo o que pude na Internet sobre autismo.Dormia pouquíssimas horas por dia, pois passava todo tempo que eu tinha entre o trabalho e as pesquisas. Falava com ele todos os dias. Contava a ele como foi o meu dia e perguntava como havia sido o dele. Mas ele não respondia. Porém, eu insistia. Ficava ao lado dele e falava bem baixinho, porque ele sempre teve a audição muito apurada. Abraçava ele pelas costas, porque ele não gostava de abraços, e balançava o corpo junto com ele enquanto ia falando a ele o quanto ele era importante para nós e que sentíamos sua falta. Não forçava nada, mas também não desistia um só dia. Não passava a ele a angústia que estávamos sentindo. Colocava o filme Monstros S.A. (que ele adorava) e assistia com ele o tempo inteiro. Repetidamente. Enquanto assistia, mostrava a ele que estava adorando estar ali com ele e comentava algumas cenas. Imitava os personagens e ria das cenas. Ele começou a interagir mais e mais depois que o levamos ao carrossel.
Hoje, ele está com 13 anos e a rotina é a mesma. Estímulos diários por toda a família.Não deixamos a peteca cair. Se deixar, ele prefere ficar isolado, mas confessa que está adorando a “viver nos dois mundos”, como ele mesmo diz. Foi ele quem inventou essa expressão para ele.

janelinha para o mundo - A tua entrevista para a Revista Marie Claire foi muito comentada, tens a noção do impacto desta matéria e o quanto conseguistes ajudar e encorajar outras mães a fazerem o mesmo que tu?

Anita Brito - Tenho alguma noção por conta do número de e-mails e mensagens que recebo, diariamente, de pessoas me dizendo que começaram a estimular seus filhos e que estão vendo resultados. Mas não tenho a real noção. Recebo muitas mensagens também de mães e pais que me dizem que nossa história serviu de inspiração para eles, porque nunca prometemos cura para o autismo, pois não cremos em cura e não cremos que o autista seja um doente para ser curado. Nunca dissemos que “meu filho ERA autista” porque estávamos descontentes com ele e, isso, as pessoas reconhecem quando lê nossa história. A mensagem, para aqueles que entendem de cara, é de que ele saiu do isolamento do autismo. Meu filho É autista e morremos de orgulho dele e o amamos como ele é, mas, nem por isso, deveríamos ter ficado de braços cruzados enquanto sua vida ia passando em frente aos nossos olhos sem fazermos nada. Acreditamos que os estímulos diários fazem com que eles desenvolvam mais do que se não fossem estimulados. Segundo o Nicolas, é bom ficar isolado e “imaginar coisas”, mas que a convivência no mundo também o deixa feliz porque ele consegue se expressar e poderá ter uma namorada, porque ele disse que “mulher gosta de falar”! rsrsrsrs

janelinha para o mundo - Quando e como surgiu a idéia de escrever um livro sobre a história do Nicolas?

Anita Brito -  Foi em 17 de janeiro de 2008. Mas foi impossível, pois estava no Mestrado e ainda passando por várias dificuldades financeiras (deixadas da época em que o Nicolas ficou muito doente e não conseguíamos trabalhar e cuidar dele ao mesmo tempo). Então, em 27 de fevereiro de 2011, estávamos olhando o Nicolas em casa e começamos a conversar sobre como ele estava evoluindo e como já estava super bem, nem lembrava aquela criança ausente de antes. Então disse ao meu marido que iria escrever um blog sobre sua história. Comecei a receber muitas mensagens e percebemos que, com um livro, atingiríamos mais pessoas. Em menos de uma ano, escrevi o livro, editei, imprimi e lancei. Sem editora. Tive patrocínio do Delio Melo, que assistiu a uma de nossas palestras e se apaixonou pelo Nicolas, do professor Manoel, que é professor de matemática do Nicolas, e do Colégio Elyte, que é onde o Nicolas estuda. Em menos de um ano, já vendemos mais de 1.500 cópias. Já pagamos o restante do livro e, agora, toda a renda é revertida para o Nicolas ou para viajarmos para dar palestras, pois nossas palestras são gratuitas.

janelinha para o mundo - Ele já leu o livro? Como foi a reação?

Anita Brito - Ele não gosta de ler! Hahahaha. Só gosta de ler tirinhas na escola e gibis em casa. Mas memorizou a primeira linha do primeiro capítulo do livro. O que ele gosta mesmo é de dar autógrafos ao final de nossas palestras. Ele diz o preço do livro e diz: “Mas o autógrafo é de graça!” hahahaha é muito fofo!

janelinha para o mundo - Como é a relação dele com o irmão adotivo?

Anita Brito - Os dois se dão EXTREMAMENTE bem. Sou uma mãe super legal, mas também super rígida. Não aceito falta de educação e brigas desnecessárias. Eles me obedecem 100%, porque tudo em casa é explicado o porquê. O clima aqui em casa é muito bom. Damos muito amor e carinho aos nossos dois filhos. O Guilherme foi adotado aos 13 anos e hoje está com 15. Me chama de mãe e o Alexsander de pai. Ele é louco por nós e nós por ele. Ele e o Nicolas correm pela casa e vivem rindo e gritando, porque um corre atrás do outro. Eles se divertem muito juntos. Rsrsrs. É gostoso de ver. Tenho em vídeo os dois brincando.

janelinha para o mundo - Qual a mensagem que podes deixar para as mães com filhos dentro do espectro autista?

Anita Brito - Primeiro que, assim como outras crianças, um autista não é igual ao outro. Não é porque o meu filho evolui que o seu vai evoluir igual. Ele pode evoluir mais, em alguns aspectos, ou menos em outros. Porém, todos somos assim. Costumo dizer que eu cozinho muito bem, canto muito mal e não sou capaz de tocar um instrumento. Isso não quer dizer que eu seja deficiente. Alguns autistas conseguem se comunicar muito bem de outras formas. O que eu digo é: não procure um ideal de criança, pois você já tem a criança ideal. Ame esse filho e ajude-o a ter qualidade de vida. Isso vale para seus filhos autistas ou não-autistas. Isso vale para quem é mãe e pai de verdade. Ame seu filho e verá o quanto ele irá evoluir. Basta você mudar sua perspectiva. O fato de ele estar vivo, já é motivo suficiente para celebrar, agradecer a Deus e tentar 100%. Algum resultado terá. Não importa o quão pequeno possa parecer aos outros, preocupe-se em amar seu filho e querer que ele seja feliz… “Nicolas nasceu com autismo, e lutamos muito para que ele fosse simplesmente feliz. Nem normal, nem autista, nem gordo, nem magro ou qualquer outro rótulo. Apenas... feliz.” (primeira orelha de nossa livro)

janelinha para o mundo - Qual a principal lição que tiras desta experiência?
Anita Brito -  Que eu sempre quis ser mãe e sei que sou. Que ninguém é igual a ninguém e que temos que respeitar o tempo das pessoas, sermos pacientes. Que ao invés de ficar criticando o outro, eu opto por depositar minhas energias positivas em criar meu filho. Que amar é o sentimento mais gostoso dessa vida. E o principal: Se Deus te deu uma missão, cumpra-a. Pode parecer duro às vezes, mas é o valor que você dá aos momentos que os fazem melhores ou piores.



janelinha para o mundo - Como o livro pode ser adquirido?

Anita Brito - Pode ser comprado no Mercado Livre, na Livraria Cultura, no Magazine Cappoia, no Foto Veneza em Jandira, ou pelo e-mail : meufilhoeraautista@yahoo.com.br
Recentemente foi ao ar uma matéria com a Anita e o Nicolas, no programa Hoje em dia, da Record. 


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E para quem quizer conhecer um pouquinho mais do Nicolas, aqui tem um vídeo dele, tocando 'Otherside', do Red Hot Chilli Peppers - com seu irmão e seu amigo.