segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A infância dos pais. Um breve relato.

Lembro-me perfeitamente de minha infância meio desajustada. Pais que brigavam demais, muitos irmãos em um único cômodo (éramos seis). Passávamos muita necessidade financeira e recebíamos muitas doações de igrejas, tanto evangélicas quanto católica, o que nos ajudava a ter o que comer e o que vestir. Houve uma época muito dura, onde minha mãe trazia sopa da escola à noite para comermos. Isso torturava meus pais...
Um dia fiquei sabendo que no final da feira, que era perto de nossa casa, sobrava muita coisa boa ainda, mas que eles jogavam fora porque não teriam como aproveitar para o outro dia. Fui até lá e catei muita coisa no chão, separando tudo num frenesi louco para pegar o maior número possível de vegetais em bom estado, afinal de contas, eu não era a única que estava ali para disputar comida!
Quando cheguei em casa foi uma festa com meus irmãos menores. Tinha mandioquinha, um pedaço de melancia, abobrinha e abóbora moranga. Limpei pacientemente os vegetais e separei tudo o que prestava. Fiz um cozido bem gostoso e almoçamos feitos reis e rainhas. Ah, ainda tinha um pedaço de melancia de sobremesa! E  melhor de tudo: Sobrou comida para fazermos à noite.
Quando minha mãe chegou e sentiu o cheirinho bom de comida, ela perguntou:
- Nossa que delícia! Quem deu?
E eu fui cheia de orgulho:
- Eu peguei hoje na feira mãe!
- Pegou? Como assim “pegou”?
- Ah, uma amiga minha da escola que me falou que no final da feira sobrava muita coisa boa, então eu fui lá e catei o máximo que consegui. – Fiquei achando que ela ira morrer de orgulho de mim, mas os olhos de decepção e a vergonha que saia de seu olhar nunca sairá da minha cabeça... Minha mãe me deu uma bronca enorme e me proibiu de voltar lá.
Serei sincera com vocês. Não entendi na época e fiquei muito brava com minha mãe. Não achava que havia lugar para orgulho naquela situação. Hoje eu entendo minha mãe. Saber que seus filhos estão catando “lixo” e que os outros que vêm irão julgar, não deve ser nada fácil.
Em suma, decidi ser alguém na vida e prometi que meus filhos jamais teriam que fazer isso o que eu fiz. Estudei muito, terminei dois cursos de graduação ao mesmo tempo (o que naquela época era muito difícil ter ao menos um!) e procurei me especializar o máximo possível em minha profissão.
Apesar de toda a dificuldade éramos unidos em casa e tínhamos, na medida do possível, o carinho de nossos pais e apoio mútuo.
Estranho que, em um cenário como este, sempre tive desejo de ser mãe, o que é uma antítese se percebermos o martírio em que eu me encontrava. Uma vez, aos oito anos, virei para minha mãe com um travesseiro na barriga e disse: “Olha mãe”! Só escutei o grito do meu pai dizendo para eu parar com aquilo, pois era muito nova para pensar em ser mãe. Só tirei o travesseiro, mas a idéia nunca me saiu da cabeça.
Às vezes achava que teria um filho negro chamado Guilherme. Outras vezes sentia que seria um filho bem branquinho chamado Nicolas. E SEMPRE achava que teria um filho especial.
Já meu marido sempre teve a infância que qualquer um pediu a Deus. Pais sempre presentes, pouquíssimas dificuldades, somente um irmão e uma irmã e um tio para mimá-los bastante (no bom sentido, é claro!).
Não dizem que os opostos se atraem? Então...