sábado, 4 de janeiro de 2014

Autismo e novela das 21:00 - último capítulo


Desde que a novela "Amor à Vida" iniciou, sou questionado toda semana (às vezes todos os dias) o que eu acho da atuação da atriz Bruna Lizmeyer, se tem algo a ver com  Nicolas etc.

Ou então já escuto uma crítica ao trabalho num geral. O que mais criticam não é a atuação da atriz, mas os fatos ali relatados e como são abordados.

Bem, para quem já participa de minha vida no cenário do autismo sabe que eu tenho algumas frases que repito sem parar: "Cada caso é um caso", "Seu filho não tem que ser igual ao meu, pois todo ser é único", "Cada um desenvolve, ou não, de uma forma", e assim por diante.

Um dos maiores medos que tenho ouvido de algumas mães de autistas é o fato de se voltar à tona da teoria da "Mãe geladeira", termo cunhado e difundido pelo psicanalista Bruno Bettelheim, nos anos 1950 e 1960, em seus artigos acadêmicos e, mais tarde, em seu livro "The empty fortress" (A fortaleza vazia). Só de escrever sobre o assunto, passo mal!

O que acontece é que este artigo continua a influenciar uma série de psicanalistas, e até mesmo de psicólogos, os quais insistem em dizer que autismo é resultado da falta de afeto da mãe para com seu filho. Este assunto foi vagamente discutido em meu livro "Meu filho ERA autista..." Graças a Deus que não são todos os profissionais que pensam assim.

Ao assistir a alguns capítulos, notei que a personagem Linda é autista (é bem óbvio). O trabalho da atriz, em minha opinião, está bom e retrata uma autista que tem pais, principalmente a mãe, super-protetora. Já temos aí um inverso da mãe geladeira, pois, se lermos com atenção o que isso significa, veremos que esta mãe está fazendo, de forma exagerada, o oposto. A mãe, na novela, também não trabalha para o desenvolvimento da filha. Ela a trata na base do: "Já que é autista, vamos proteger do mundo lá fora e cuidar dela aqui dentro. Ela não desenvolve mais que isso" (ao menos ao meu ver).

Com o passar do tempo (lembrem-se que houve uma época da novela que mostrou o passar do tempo: Valdirene teve filho, mas não acompanhamos toda a gravidez, Atílio foi preso por bigamia, muita coisa mudou e meses se passaram em alguns minutos em um capítulo que explicava isto. Com certeza Linda, que já havia começado terapia com um psicólogo do Hospital San Magno, também fez parte deste "passar de tempo". Então não é tão ilógico que ela tenha desenvolvido "do dia para a noite"!

Outro ponto é que muitas mães estão crucificando e dizendo que "aquilo" não é autismo. Que o autor e a atriz estão acabando com a imagem de "nossos autistas", que aquilo é um absurdo, pois não retrata o autismo como deveria. Outras dizem que deveria ter colocado Asperger, outros, clássico, outros, menino, já que a incidência maior é em meninos, outros... Leia o Facebook e encontrará quinhentas sugestões.

Muitos reclamaram, também, que a Linda aparece pouco, lembremos que é uma novela e que o personagem principal não é a Linda. Enquanto nunca houve um autista em novela, reclamavam, agora que tem, reclamam! Se tirar a personagem da novela, é preconceito, se fizer qualquer coisa, não irá agradar a todos.

Minha opinião é: ao menos foi colocado o assunto. A novela não é sobre autismo e nenhum autista é igual ao outro, então não procuro meu filho retratado ali, mas sim o autismo, de algum âmbito, retratado dentro de uma família. Eu gostaria tanto que, ao invés de saírem gritando feito loucos que "a novela é um absurdo", que explicassem às pessoas próximas a vocês que cada caso é um caso e que aquele não retrata seu filho, mas que há sim, crianças e famílias como aquela, em situação melhor ou pior.

Quando o Nicolas foi entrevistado pela Record, teve gente que perdeu seu tempo para dizer que a televisão só mostra o "lado bom do autismo" OI? "Lado bom"?

Bem, para mim tem sido assim: há o autismo lá na novela e há o nome autismo circulando mais e mais. O que faço é observar alguns pontos com as pessoas e dizer que isso está bom e que isso talvez aconteça com um, mas não com outro.

Da mesma forma que temos gente criticando, tem gente dizendo que a personagem representa seu filho, mas que a mãe não a representa. Simples assim!

Que bom que o assunto veio à tona na novela das 21:00 da Rede Globo... Tem muito mais gente sabendo que existe autista. Cabe a mim, e a você que ama seu filho, elucidar alguns pontos.

Nem todo homossexual é mal igual ao Felix ou bobo demais igual ao Nico. Nem toda mulher que é, ou foi amante (não concordo com amantes, acho que temos que respeitar nossos lares e famílias), é ruim e vingativa como a Aline. Nem toda prostituta é igual à Edith. Nem todo filho adotado é afro brasileiro como o Jaiminho. Nem toda vendedora de cachorro quente já foi Chacrete, como a Marcia... E a lista é infinita. Todos somos seres humanos únicos.

Hoje o Nicolas me disse que gosta do trabalho dela, que ele não é igual a ela porque foi estimulado e mãe dela é uma besta que não deixa ela viver, mas que ela não é autista por causa da mãe...

Bem, desculpem-me a todos os que não concordam comigo, eu os respeito muito, mas muito mesmo, mas honestamente, eu, do alto de minha humilde passagem por este mundo, sou grata a Deus por ter tido a oportunidade de ter um autista na novela. Não tenho preguiça de explicar para as pessoas e tenho prazer em falar sobre o assunto.

Minhas lutas e conquistas são motivo de orgulho para mim. Procuro partilhar minhas conquistas, que são resultados de minhas lutas...