segunda-feira, 9 de março de 2015

Perdas e danos. Perdas e ganhos...

Hoje vou escrever algo que não gosto, pois não gosto de me lamentar. Mas acho que será mais um desabafo e uma tentativa de ganhar tempo para achar respostas.

O Nicolas não se apegava a ninguém. Era aquele típico autista, sem a menor vontade de se comunicar e de fazer amizades. Tentarei ser breve em alguns fatos.

Quando bem pequeno, ele tentou se apegar ao Gui, nosso filho adotivo que era somente nosso sobrinho na época. Mas o Gui é 02 anos e meio mais velho que o Nicolas e fazer amizade com um bebê e ainda por cima uma bebê "esquisito", não era bem o que um menino queria. O Nicolas tentou uma aproximação, do jeitinho dele, só imitando algumas coisas e falando coisas e sons sem nexo para o Gui, mas foi em vão. O Guilherme só reconheceu o Nicolas como irmão e como pessoa em 2013. Apesar de todo o tempo que levou, valeu a pena ter esperado para ver essa linda amizade que nasceu entre os dois. Eles se dão hiper bem e são amicíssimos! Dou graças a Deus a cada gargalhada que ouço dos dois. E isso é constante.

Depois teve aquela passagem que contei no nosso primeiro livro. O cara veio, com muito sacrifício conquistou a amizade do Nicolas, e um belo dia ele, simplesmente, sumiu! Liguei, pedi para ele vir aqui ver o Nicolas, que me perguntava se ele tinha feito algo errado... Sofri tanto aquela época. Chorei tanto... Mas o Nicolas, resiliente, inteligente e iluminado como é, superou. Eu sou um ser humano comum, ainda dói quando lembro e estou chorando agora só de escrever.

Em 2012, apareceu o nosso filho Intercambista, aquele que o Nicolas fala em todas as palestras. O Humbert veio todo tímido, 17 anos, e simplesmente decidiu que o Nicolas seria seu irmão e que autismo não seria impedimento para uma linda e pura amizade. Dá gosto de ver os dois no Skype e pessoalmente. É visível o amor que um tem pelo outro. Mas, chegou a hora do Humbert partir de volta para a França. E o Nicolas ainda sofre a falta do irmão que ele ama tanto. Ele entende que o lugar do Humbert é lá, mas queria estar mais próximo do irmão de coração dele. O lado bom, é que o Nicolas agora aceita viajar para fora do Brasil. Ele já prometeu ao irmão, que sempre deu a maior força para o Nicolas, que irá visitá-lo na França. Agora, o Nicolas já até pensa em morar fora do Brasil. Parece ser uma coisa besta, mas o Humbert conseguiu tirar do Nicolas a ideia fixa que ele tinha: "Eu nunca vou sair do Brasil. Eu não gosto de sair de casa. Eu nasci em São Paulo e tenho que morrer em São Paulo!"

Neste ano de 2014, foi o caos total! Depois que o Humbert foi embora, o Nicolas se apegou à Izabelle, de quem também já falamos aqui no blog. Ele começou a sair para o intervalo da escola, a fazer amizades, a conversar com outras pessoas etc. Mas em 2014, a Izabelle e a Fernanda, que também era amigona do Nicolas, se formaram na escola e foram embora...

Aí, as duas melhores amigas de sala dele, infelizmente, repetiram de ano. Um casal de amigos nossos, que são maravilhosos com o Nicolas, e os quais também falamos deles aqui no blog e no livro, foram embora para Curitiba. O outro casal que amamos muito e que são amigões do Nicolas, foram embora para Minas Gerais. Eram umas das poucas casas que o Nicolas ia e se sentia à vontade.

O Nicolas entende que todos estão bem, porque falamos sobre isso e sempre mostro para ele que as pessoas evoluem. Graças a Deus, ele é inteligente e entende, mas isso não apaga o que ele sente por essas pessoas. Dri, Bruno, Heitor, Vivi, Syllas e João Pedro: Vocês estão fazendo falta...

Foram tantos golpes bem na época em que ele tem se desenvolvido mais, que trouxe um monte de angústias para ele. Ele fica ansioso, mais disperso, mais trancado no quarto e o pior, voltou a se isolar no recreio da escola. Hoje, eu fui dar aula, e ele estava sentado no mesmo sofá que ele ficou por anos perto da sala dos professores.

Hoje eu chorei muito. Estou chorando agora. Mas o bom é que eu não preciso me lamentar aqui porque meu filho é autista. Só estou vendo meu filho crescer, passar por perdas inevitáveis e saber que ainda estou viva para ajudá-lo a passar por isso tudo. O que me move é que todas estas pessoas o amam muito e que precisaram ir embora, mas que sei que o amam muito. Ele não foi abandonado por elas. Me conforta saber que ele é forte para aguentar alguns trancos. Me conforta saber que essas pessoas só estão longe, mas que estão todas vivas e bem.

E me conforta mesmo, é saber que meu filho foi capaz de desenvolver sentimentos, os quais os médicos diziam que ele não teria e que ele mesmo, por anos, mostrou que não estava interessado.

É bom saber que ele se importa, que ele ama, que é amado... É bom saber que estamos passando por um episódio que qualquer outro adolescente passaria.

Estou chorando, mas estou feliz. Meu filho me faz feliz.

Te amo, filho! Muita gente te ama.