sexta-feira, 15 de abril de 2011

Capítulo 15

Havia se passado três semanas desde que o Nicolas havia ficado internado por causa da Púrpura e em casa ele ficava sempre calado e não respondia a quase nenhum estímulo. Voltamos ao médico e ele disse que era normal. Falei com o pediatra novamente sobre autismo e, cansado de me ouvir bater na mesma tecla, ele me disse que seria melhor eu procurar um médico especialista, mas que não havia nada de errado com o Nicolas. Neste meio tempo, veio o telefonema que eu tanto aguardava e, por causa de tudo o que havia acontecido, eu acabei me esquecendo.

Como eu disse antes, minha aluna me indicou para participar de um processo seletivo de um dos programas de intercâmbio do Rotary, o IGE. Neste programa são contemplados 04 jovens entre 25 e 40 anos para viajar a um outro país e representarem o Brasil. Eles te preparam durante alguns meses antes da viagem e você fica por um mês fora com todas as despesas pagas representando seu país e dando palestra sobre diversos temas como saúde, educação, geografia e política. É uma chance em um milhão para um jovem que não tem condições financeiras de arcar com este tipo de experiência que, quer queira quer não, no Brasil faz muita diferença para o currículo.

Quando recebi o telefonema que eu havia sido selecionada eu, com toda a frieza do mundo, pedi para a pessoa repetir a informação porque eu não tinha nem prestado atenção no que ela havia me dito. E ela repetiu toda empolgada:

- Você foi selecionada para participar do programa IGE que contemplará 04 jovens para ir à Suécia!

Ao que eu repeti com total e absoluto desânimo:

- Ah, é do Rotary. Desculpe-me, eu não havia entendido. Bem, eu sinto muitíssimo, mas terei que declinar.

- O que? Mas é uma oportunidade única. Isso vai te ajudar muito em sua vida e seu currículo é um dos melhores...

E eu já não escutava mais nada. Esperei ela terminar de falar e disse bem educadamente:

- Acho que você nem sabe o quanto isso realmente é importante para mim, mas meu filho ficou muito doente por esses dias e eu não quero me comprometer com algo que não vá cumprir direito. Essa viagem seria a real porta de entrada para o que eu sempre quis fazer, mas acho que não é o momento.

- Anita, eu entendo, mas seu filho não FICOU doente? Acho que agora ele já está melhor, não é?

- Infelizmente nós nem sabemos quando ele ficará bem. Eu sinto muito mesmo, mas sei que Deus sabe de todas as coisas. E se não for agora...

- Bem, vou guardar seus documentos aqui. Espero que seu filho fique bem logo e quem sabe em uma próxima oportunidade. Tenha um bom dia.

Agradeci e saí de casa com meu filho e meu marido para passearmos um pouco e tentarmos espairecer. Falei para o Alexsander, que também recebeu a notícia da forma mais apática possível. Tínhamos que tomar uma série de iniciativas e estávamos nos sentindo totalmente desamparados, porque havíamos acabado um “acompanhamento” com uma das psicólogas. Médicos e pediatras não tinham a menor pista do que estávamos falando, mas insistiam que ele era lindo e normal. Meu marido, graças a Deus já estava ao meu lado nessa empreitada e aceitou ir buscar médicos por conta própria.

Sem nenhum encaminhamento, fomos atrás de um psiquiatra que era tão longe da nossa casa que qualquer outro desanimaria. Meu pai nos acompanhou, o que deixou a pequena viagem um pouco mais leve porque no caminho ele conseguia manter a cabeça do meu marido um pouco mais fria. Eu fique no carro, atrás, com o Nicolas tentando manter contato de vez em quando. O clima em casa estava simplesmente horrível. Nós não nos tratávamos mal, de forma alguma, mas também não nos tratávamos mais. Bateu uma tristeza tão grande, mas tão grande que eu tinha a impressão de que iríamos entrar em combustão espontânea a qualquer momento.

Apesar de sempre achar que ele era autista o fato de ele “estar ainda mais autista” era desesperador porque ainda existia a chance de só eu estar errada antes, mas agora todos notavam que algo esta errado e estávamos prestes a ouvir um especialista. O que uma mãe pede nesta hora? Nem eu sei dizer exatamente o que eu pedia em minhas orações naquele momento, mas nunca me esquecia de pedir a Deus para que o Nicolas fosse feliz, não importava o que acontecesse ou qual seria o diagnóstico, nós só queríamos que ele fosse feliz.