domingo, 16 de dezembro de 2012

Nossas experiências com Autismo e Sexualidade - Parte III

     Quando o Nicolas completou 05 anos, comecei a conversar com ele sobre o fato de seu "pipo ficar duro". Como disse antes, ele não falava quase nada e mal respondia, mas com o tempo foi respondendo e entendendo o que eu estava dizendo. Eu sempre tive uma certeza dentro de mim de que, apesar de ele demonstrar não estar escutando, eu sabia que ele me entendia e esperava pelo dia de ele conversar comigo e interagir na conversa. Esse dia já chegou :-)
     Porém, antes de chegar, penamos por vários anos na incerteza se ele realmente estava entendendo e as histórias que havia ouvido sobre autismo e sexualidade, todas negativas, estavam me assombrando.
     Um dia, quando o Nicolas estava com uns 06 anos, eu percebi que ele estava mexendo no pênis. Então eu comecei a falar com ele na maior naturalidade:
     - Filho, você está mexendo no pipo?
     - Sim.
     - Você sabe que só pode mexer dentro de casa, né?
     - Por quê?
     - Eu te disse que a polícia não vai gostar de ver um garoto grande como você (o Nicolas sempre foi enorme, conforme relatado antes) mexendo no pipo na rua. Nem as pessoas vão gostar e vão falar que eu não soube te educar e eu vou ficar muito triste, filho. Você está me entendendo?
     - Sim.
     - Então promete para a mamãe que você só vai mexer no pipo dentro de casa e só dentro do quarto. Você promete?
     Silêncio...
     - Amor da mamãe. você promete que só vai mexer no pipo dentro de casa?
     - Sim.
     - Obaaaaaaaaa. Papai, o Nicolas prometeu que só vai mexer no pipo dentro de casa! Olha que lindo. Vamos levá-lo ao McDonald's hoje?
     - Vamos, mamãe! Ele merece esse prêmio porque ele é muito inteligente e entende tudo, né filhão!
     - Entende sim papai. Ele é muito inteligente e lindo, né filho?
     Aos sete anos, expliquei ao Nicolas sobre o famoso "troca-troca" na escola e que ele jamais deveria deixar qualquer garoto (ou até mesmo garota naquela idade) pegar em seu pênis. Aos oito anos, expliquei ao Nicolas sobre menstruação com a maior naturalidade e disse a ele que só as mulheres tinham. Por causa do sangue, ele me perguntou:
     - Mas dói? Você chora?
     - Não, meu amor. Não dói nada. Às vezes dá uma cólica em algumas mulheres, em outras dá dor nas pernas, outras têm dor nas costas e outras, assim como eu, têm dor de cabeça. Mas isso é normal.
     Mal sabia ele que eu quase morro de dor de cabeça, hoje ele já sabe!
     Aos nove anos explicamos a ele como os bebês são feitos. Ele já sabia como nasciam porque já havíamos explicado, não me lembro bem quando, mas explicamos primeiro como nasciam e só algum tempo depois como eram feitos.
     Durante todo esses anos, sempre nos lembramos de elogiá-lo por não se masturbar ou tocar no pênis na rua. Ele fica todo orgulhoso quando é elogiado e dá um sorriso lindo seguido de um bem pronunciado "Muito obrigado".
     Aos 10 anos, dissemos a ele como se dava a relação sexual e quais as sensações. Ele parou, pensou e disse:
     - Não vejo a hora de fazer 18 anos para transar! (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk)
     - Por que 18 anos, amor?
     - Porque aí eu já vou ser grande. Aqui no Brasil pode fazer as coisas com 18 anos que você falou, lembra?
     Acho que foi quando eu expliquei que era época de ir ao exército, dirigir, etc. A época da independência em alguns aspectos.
   
     Conforme o Nicolas foi crescendo, fui me preocupando mais e mais com o prepúcio ou com uma possível volta da fimose, pois ele não deixava pegar para lavar direitinho por dentro. Comecei a pensar em circuncidá-lo para facilitar a higienização. Falei com meus irmãos e marido sobre suas experiências e fiz a melhor escolha. Levei-o ao urologista, pois estava muito preocupada com a fase da masturbação que estava chegando e de como seria. Ele se sentiria enojado? Conseguiria limpar-se a pós a ejaculação? O prepúcio o atrapalharia por causa de sua falta de coordenação? A higienização pós ejaculação seria fácil para ele, para que não precisássemos intervir e, assim, levar uma vida normal em relação à masturbação?
     Fomos a um urologista excelente, Dr. Domingos, que me foi indicada por meu marido e irmãos. Ao chegar no consultório, disse a ele que meu filho é autista e ele tratou o Nicolas com o maior carinho do mundo... Imaginem o carinho que eu não tenho por este médico até hoje. Mesmo não tendo o menor contato com ele, está sempre em minhas orações, porque ele foi tão fofo com o Nicolas, tão compreensível e amável, que foi fácil fazer com que o Nicolas confiasse nele e deixasse ele examiná-lo.
     - Vamos lá Nicolas! Pode subir aqui e deitar que nós vamos dar uma olhada aí. Não precisa ter medo, viu! Será bem rápido e você não vai sentir nada.
     - Mãe? - Disse o Nicolas me olhando com aquele olhão desconfiado.
     - Pode confiar, filho. Ele é amigo da família inteira e sabe o que está fazendo. Ele nunca machucou ninguém, não é Doutor? - E o Dr. Domingos logo entendeu o jogo da voz doce e da reafirmação e foi logo dizendo em um tom bem descontraído e amável.
     - Nunca machuquei ninguém, não. Eu só vou olhar e mostrar para ele como limpar direitinho. Vai lá, garotão. Vamos dar uma olhada.
     O Nicolas subiu na maca e segurou minha mão com tanta força que eu achei que fosse me machucar. O tempo inteiro ficamos encorajando-o e dando todo suporte necessário a ele. Ele suou tanto na maca que até molhou aquele papel de proteção que serve para o paciente deitar-se. Então o Doutor Domingos começou puxar o prepúcio para ver se estava tudo bem e o Nicolas, conforme o médico tentava abaixar o prepúcio, ia levantando o bumbum e se retraindo para trás, o que começou a dificultar. Mas aí eu disse a ele:
     - Filho, relaxa e deixa ele examinar, porque se ele não conseguir, teremos que operar e aí as coisas ficarão piores, pois será igual a quando você operou do apêndice. Hospital, dor, remédios e etc. Você quer isso?
     - Não! - Responde ele bem inseguro e segurando minha mão.
     - Então deixe o médico examinar que sairemos daqui rapidinho. Ah, e se você não deixá-lo examinar, acho que você não poderá transar com 18 anos.
     Pronto! Ele começou a a dizer "Então tá bom! Então tá bom!" e foi relaxando. E... o Doutor Domingos conseguiu! Tirou todo o prepúcio e pudemos ver que estava tudo em ordem, bem limpinho e que a fimose não havia voltado :-)
     O médico orientou o Nicolas a fazer o procedimento embaixo do chuveiro para facilitar e para praticar sempre que possível para que ele fosse se acostumando. Então, começamos a falar para ele no mesmo dia:
     - Nicolas, não esquece de treinar embaixo do chuveiro, tá bom?
     No primeiro dia, ele acabou o banho todo feliz:
     - Mãe pai, eu consegui! Eu consegui "treinar" e consegui tirar tudo para fora.
     A carinha de felicidade dele (como sempre encantadora) estava toda iluminada e com aquele ar de "Vitória"!
   
     A partir daquele dia, o Nicolas começou a "treinar" no quarto todos os dias. No começo, ele "treinava" umas 04 vezes por dia. Explicamos a ele que ele jamais poderia falar isso na frente das pessoas ou "treinar" enquanto tivesse pessoas estranhas em casa. O orientamos a trancar a porta e nos avisar para que não o incomodássemos em seu momento mais íntimo. O termo "treinar" tomou o lugar do termo "masturbar" aqui em casa. O Nicolas sabe a diferença, mas prefere usar "treinar". Claro que respeitamos e achamos muito lindo (sim, somos todos muito babões com ele, afinal o cara não falava até pouco tempo, logo, tudo o que ele fala é motivo de celebração).

     Já explicamos a ele que logo, logo ele começará a ejacular. Ainda esta semana perguntei a ele se ele já estava ejaculando e ele disse que ainda não. O Alexsander perguntou a ele:
     - Filho, você sabe o que é ejacular?
     - Sei sim. É quando sai uma "gosminha" branca de dentro do pênis.
     - E você não vai ter nojo?
     - Não. Eu vou me limpar e pronto. Vocês já me explicaram isso, lembra?

     É.... acho que conseguimos. Graças a termos ido atrás de informações e de informações terem chegado até nós, porque sempre aceitamos o autismo de nosso filho, então as pessoas sempre se sentiram à vontade para falar conosco, fomos falando com ele durante todos estes anos para prepará-lo para essa fase.

     Próximo passo? Continuar falando com ele de vez em quando, como se "faz amor". Ele será capaz? Só o tempo dirá. Porém, se ele assim o quiser e achar a pessoa ideal, ele estará preparado. E nós também.

Parte I: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e.html
Parte II: http://meufilhoeraautista.blogspot.com.br/2012/12/nossas-experiencias-com-autismo-e_13.html